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Sex Education – Season 1 & 2 – Uma das séries mais importantes da atualidade
Se há algo que faz sucesso são as séries, há variedade de histórias contadas, temas abordados e públicos atingidos fazem com que esse seja o conteúdo midiático mais consumido atualmente.

Algumas são feitas para emocionar, outras para rir, outras para educar e por aí vai, Sex Education se encaixa em todos os perfis acima. A série é transmitida pelo serviço de streaming Netflix e por ser apresentada inicialmente como uma série de comédia teen, não houve muita expectativa, mas aos poucos foi sendo comentado o quão importante são os assuntos tratados.
Ter algo que aborda o sexo como normal e mostra o quanto é importante ter informações sobre, bate de frente com a atual campanha do nosso governo e é por isso o tamanho da sua importância. Enquanto temos um governo literalmente mandando não fazer sexo para não precisarmos de educação sexual, a série consegue ensinar de maneira muito leve e divertida sobre diversos temas “polêmicos”, como masturbação, DST’s, preservativos, chuca, etc.
Como protagonista da série temos o Otis, devido a cada episódio da série ter um novo cliente e ele ficar apenas como o terapeuta, sua história na primeira temporada é um pouco clichê e repetitiva, o menino nerd sexualmente reprimido por ter problemas com o jeito de sua mãe , mas é na segunda temporada que a série mostra bem mais do personagem. O Otis é bastante chato algumas vezes, mas eu dou desconto, pois que adolescente não é? O enredo de ele se esforçar tanto para não ser babaca igual ao pai que faz com que ele seja babaca diversas vezes é muito interessante, saber que conseguiram abrir esse assunto e encerrá-lo na mesma temporada me faz ficar animado para ver o que será do personagem daqui para frente. Apesar de falar mal, eu gosto do personagem, o Asa conseguiu imprimir um jeito só seu e todas as interações que ele tem com todas as meninas e com seu melhor amigo são muito fofas, pois podemos ver o quanto ele é respeitoso.
O “par romântico” do protagonista é a Maeve, também conhecida como “a personagem mais bem construída da série”. Assim como todos os outros, ela é um estereótipo que vai sendo desconstruído ao longo da série, Maeve teve uma vida muito difícil, sua família a abandonou e ela se viu tendo que se criar sozinha com 16 anos. Todas as ações da personagem e o modo como ela reage as coisas vem através do trauma do abandono, chegando ao ponto dela passar por um aborto sozinha, pois não confia em ninguém. Indo contra todas as possibilidades, Maeve não é uma garota problemática que odeia a tudo e a todos (apesar de tentar parecer assim), ela é uma mulher feminista extremamente inteligente e madura ao ponto de ligar para polícia para prender sua mãe, mesmo que significasse ser abandonada de novo. Eu possuo tanto amor e admiração pela personagem que apenas torço para o seu sucesso, mesmo que o Otis não esteja nele.
Completando o trio de protagonistas, temos o fan favorite, também conhecido como Eric. O personagem é melhor amigo do Otis e ele é a definição de “ser de luz”, não importa o que aconteça, ele está com um sorriso no rosto e sendo o alívio cômico. Por muito tempo essa foi sua função, apenas nos episódios finais da primeira temporada, após sofrer um ataque físico de homofobia que ele tem toda uma sequência de deterioração até a aceitação. Por ser o maior favorito pelo público, na segunda temporada, ele ganha um triângulo amoroso para chamar de seu e apesar de amar triângulos amorosos, achei o resultado final desse aqui mal trabalhado, mas falarei mais para frente.
Se a Maeve é a personagem mais bem construída, o Adam foi o melhor trabalhado, ele é o valentão da escola e tem como principal vítima o Eric, o garoto negro e gay, mas com o passar dos episódios vemos que ele apenas reproduz o que ele aprende em casa, já que seu pai é extremamente abusivo e enche ele de expectativas que ele nunca irá alcançar, além do fato de ser reprimido quanto sua sexualidade. Na segunda temporada, o personagem ganha um arco de redenção ao junto de sua mãe se livrarem do seu pai e através da sua amizade com Olá (como não se emocionar com a reação dele quando a Ola o chama de amigo?) e sua relação com o Eric.
Eu decidi falar do romance entre Adam e Eric separado, pois é algo que me incomoda muito. Eu passei a minha vida escolar inteira sofrendo ataques homofóbicos e se não for uma síndrome de Estocolmo, é impossível ter um sentimento acima de desprezo por aquela pessoa que te faz se sentir não seguro o tempo todo. Por um relacionamento entre a vítima e seu agressor é extremamente irresponsável, até mesmo na segunda temporada em que entendemos melhor o Adam, isso não muda do que ele fez e não consigo entender como o Eric conseguiu deixar todas aquelas horríveis para trás. As cenas entre ambos na segunda temporada são extremamente fofas, ainda mais quando o Adam confessa achar que todos o odeiam e talvez se tivessem construído esse relacionamento apenas na segunda temporada ao invés de jogarem lá no final da primeira do nada, eu poderia ter aceitado mais, mas o roteiro foi desse jeito e para piorar, o Eric escolhe o Adam na frente do seu atual namorado e da escola toda, cagando para responsabilidade emocional que ele deveria ter tido com o Haim. A resolução desse triângulo me soou apressada, mas vamos ver como funcionará eles como um casal assumido na terceira temporada.
Se alguém algum dia me dissesse que Gilian Leigh de X-Files iria fazer uma série de comédia teen como uma mãe sexóloga, eu diria que ela está muito louca, mas aconteceu e foi maravilhoso. A Jean é uma personagem extremamente bem construída e relacionável, ao mesmo tempo que ela é uma mãe “cabeça aberta”, ela ainda possui atitudes que toda mãe irá se identificar, sendo as vezes intrometida até demais, mas o relacionamento tão complexo entre mãe e filho é um dos maiores trunfos da série.
Além de dar um show em assuntos considerados tabus, a série tem uma variedade de etnias em seu elenco e uma diversidade enorme de orientações sexuais, temos bissexuais, gays, lésbicas, heteros, pansexual e mesmo que apenas levemente comentando, há também uma personagem assexuada, algo muito pouco debatido.
Apesar de se definir como uma série de comédia, há 3 momentos em especial que eu gostaria de destacar, pois são de extrema importância e foram representados de uma forma muito responsável, mas como nenhum deles é meu lugar de fala por ser homem, eu darei esse espaço para uma amiga comentar.
A série sempre teve o feminismo como um grande fator, tanto que o momento mais marcante para mim na primeira temporada foi onde todas as meninas se unem e falam “é a minha vagina!”, mas um momento que eu quero destacar dessa primeira temporada foi o episódio do aborto. Há muito pouco tempo “cristãos” foram na porta de um hospital protestar o aborto em uma menina de 10 anos, ver tal atrocidade me fez comparar diretamente com a série, que mesmo em um país onde o aborto é legalizado fez questão de mostrar o quanto até mesmo lá uma mulher é julgado por fazer uma escolha com seu próprio corpo. Toda a sequência na clínica é muito triste, mas realista, eu não vou discutir os motivos que levaram a essa escolha da Maeve, apenas achei que a série conseguiu mostrar a dualidade do assunto, o corpo é nosso e decidimos o que queremos fazer com ele, mas isso não anula o fato de que você possa se sentir triste caso queira.
Para quem não sabe, pílula do dia seguinte é um remédio que deve ser tomada para evitar a gravidez quando se transa sem camisinha, mas é recomendado tomá-la no máximo duas vezes ao ano, pois elas desregula todo o nosso corpo. Eu nunca havia visto uma série ou filme evidenciar o quanto o questionário para comprar a pílula é evasivo e é assim mesmo, nós somos obrigadas a comprar por nós mesmas, temos que responder questões sobre nossos antepassados que não somos obrigadas a saber e isso tudo serve para nos constranger, tentar nos fazer mudar de ideia e diminuir as chances da pílula funcionar, pois quanto mais tempo se passa a eficácia vai diminuindo. Ver esse assunto sendo tratado me fez ter esperança de que você homem que está lendo, mesmo que tenha sido um sexo casual e você não queira nada mais com a menina, entenda o quanto humilhante é a situação que nos fazem passar e esteja ali por ela como o Otis esteve o tempo todo.
Caso alguém não saiba, no Rio de Janeiro há um vagão no metrô específico para mulheres devido ao tanto de assédio que sofremos nos transportes públicos, muito provavelmente você homem nunca precisou se preocupar com a roupa que iria usar ao pegar um ônibus, ou ficou apreensivo ao imaginar quem sentaria ao seu lado ou cada vez que entra em Uber sozinho fica pensando que talvez que aquela seja sua última vez vivo. Chega a ser pesado para mim comentar o caso que aconteceu com a Amy, mas é necessário. Há milhões de vídeos de homens se masturbando em transporte públicos, há até grupos no Facebook onde se vangloriam de se “esfregar” nas mulheres, o assédio que a Amy sofreu machucou não só a ela, machucou todas nós que sabemos exatamente como é a sensação de impotência e incredulidade, pois ficamos paralisadas sem entender como aquilo pode acontecer conosco. Quantas de nós trocamos o caminho de casa para não sofrer esse tipo de coisa? Ou descemos pontos antes do nosso, pois havia alguém nos encarando de forma estranha? Eu já perdi a conta de quantas vezes sai de casa de calça mesmo no calor para tentar evitar qualquer tipo de situação comigo e no final, toda mulher que passa por isso termina igual a Amy, sem conseguir ter mais relações, não conseguir mais utilizar o mesmo transporte e até mesmo ver o rosto do seu assediador o tempo todo.
A cena na delegacia é outra que mostra exatamente como acontece, não importa qual roupa estejamos, se trocamos olhar com alguém, ou demonstramos interesse ou não, isso não dá direito nenhum de alguém invadir o nosso espaço, eu gostaria acima de tudo não viver em uma sociedade tão machista que homens se vem no direito de abusar de nós sem sofrer qualquer consequência e eu também gostaria muito que assim como na série, não importa se há qualquer diferença entre nós mulheres, a sororidade SEMPRE vem acima.
Outras Observações:
  • Foi algo bem secundário, mas como foi gostoso acompanhar a independência da mãe do Adam.
  • O modo como os pais tratam de maneira tão natural a sexualidade dos filhos na ficção deveria ser algo que a realidade deveria se espelhar.
  • Mal posso esperar para ver mais desenvolvimento no relacionamento entre a Ola e a Lily.
  • Muito bom ver o Jackson tendo mais destaque e o transtorno de ansiedade dele sendo mais trabalhado.
  • Apesar de ter achado muito clichê, eu gostei do Isaac ter apagado a mensagem, pois trás mais chances de Otis e Ruby acontecer.
  • Essa série é tão maravilhosa e inclusiva que o ator que interpreta o Isaac, o George Robinson, é realmente paraplégico.

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Ives Gonçalves

Um carioca estudante de direito querendo se formar, viciado em x factor´s do mundo e que ama uma praia

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