Posts Populares

The Crown – Season 3 – Como a 3ª temporada transformou The Crown?

Como fazer uma série histórica se tornar tão atual?

Essas são apenas algumas perguntas que fazemos ao longo da terceira temporada da preciosa The Crown, da Netflix. A mais recente temporada da série chegou no dia 17 de novembro à plataforma, e já fez questão de impactar logo no primeiro episódio, com toda uma trama sobre possíveis relações de membros do alto escalão britânico com o serviço secreto soviético, a KGB. Claro, esse tipo de enredo sempre nos prende, pois nos faz pensar como pudemos passar tanto tempo sem saber desse tipo de acontecimento dentro da família real. Impossível esquecer do sexto episódio da segunda temporada, quando vemos todas as possíveis relações do Duque de Windsor, tio de Elizabeth, com o nazismo e até Hitler. Episódios como esse da KGB nos mostra de forma muito sútil e clara como Elizabeth agora entende e cumpre muito bem o seu papel lidando com essas adversidades. O discurso dela na galeria de arte é simplesmente perfeito.

Porém, outra coisa chamou a atenção logo no início da nova temporada: o novo elenco. Seria Olivia Colman, recém vencedora do Oscar de Melhor Atriz interpretando uma outra rainha britânica, capaz de substituir a brilhante revelação Claire Foy, que nos conquistou com seus olhos claros, sorriso tímido e entrega completa ao personagem? A resposta não demorou muito a aparecer. Os trejeitos desconfiados, pouco seguros, mas fortes, que Claire havia imposto à sua Elizabeth II, ainda estavam presentes. Olivia conseguia manter a classe e o poder da rainha vivida por Claire, de maneira que nós, telespectadores e fãs fervorosos da série, nem levávamos tanto em consideração o fato desta nova rainha não possuir os mesmos olhos claros da antecessora. Olivia não só manteve as características criadas pela Claire Foy, como construiu as dela brilhantemente nos fazendo perceber que estávamos agora diante não só de uma rainha que tinha uma voz mais firme, mas, também de uma mulher mais madura e consciente do seu papel no mundo.

Não somente Olivia foi capaz de impressionar, mas também todo o novo elenco, com destaque principalmente à Helena Bonham Carter e Tobias Menzies, que foram capazes de tornar seus personagens mais humanos e seus sofrimentos mais fortes, e aos atores Erin Doherty e Josh O’Connor, que apesar de pouco conhecidos nos chocaram com a semelhança aos personagens que interpretavam.

Aproveitando a deixa, Margaret foi uma das grandes estrelas dessa temporada, com pelo menos 2 episódios destacando a presença da princesa, especialmente o incrível “Margaretology”. A trajetória da irmã deixada de lado, que não pôde se casar com o homem que verdadeiramente amava, que teve que abrir mão de muitas coisas em nome da Coroa e da rainha, acaba por nos fascinar demais. E ao fim do segundo episódio, quando percebemos o anseio dela em se fazer útil, após o sucesso com o presidente americano Johnson, é possível se colocar em seu lugar e perceber toda a angústia passada através dos olhos de Helena Bonham Carter. Felizmente, Phillip nos entrega um dos melhores diálogos da temporada, quando mostra a Elizabeth que Margaret está destinada a não ser útil, a não ser importante, como o irmão de seu pai foi, e como seus filhos irmãos de Charles seriam. Não dá pra não pensar na relação William e Harry aqui, onde William sempre esteve posicionado de maneira mais séria e distinta, enquanto Harry esteve no centro de alguns escândalos durante a juventude.

A temporada também nos entrega outros episódios sensacionais, dignos de prêmios. O episódio “Aberfan”, que mostra a tragédia no pequeno vilarejo, me tirou lágrimas dos olhos, principalmente pela situação toda e pela atuação belíssima de Olivia. Toda a construção é propositalmente pensada para que nós possamos nos sentir não na pele da rainha da Inglaterra, mas sim da mulher que é mãe e tem em suas costas o peso de uma nação que não lhe da descanso. Nós podemos ver nesse episódio como algumas coisas podem trazer a memória de Elizabeth que ela é humana e tem emoções sim, mesmo que ela esqueça disso por algum tempo. O fim do episódio nos deixa com um gostinho agridoce na boca, um aperto estranho no peito. Sensações passadas pelo arrependimento de Olivia na pele de Elizabeth. E esse arrependimento é tão real que a série revelou que mesmo depois de tanto tempo, e ainda nos dias de hoje, ela volta no lugar da tragédia.

A sequência com o episódio mostrando a relação de Phillip com sua mãe é outro ponto alto. Primeiramente, essa é uma história que nos deixa totalmente de queixos caídos, uma vez que durante toda a trajetória da família real nunca vemos menção à sogra da rainha Elizabeth, a princesa Alice da Grécia. Ver pelo que ela passou, como se manteve uma pessoa forte, que buscava reduzir sua culpa fazendo o bem aos outros, e vê-la buscando a aceitação e o carinho do filho novamente, foi algo digno de cinema, que não foi planejado por Phillip durante o documentário. Aliás, eu pagaria o que fosse pra ver esse documentário. Deve ter umas cenas muito boas, completamente forjadas, pra mostrar que a família real é completamente “normal”.

Uma das figuras mais controversas da família real é o Príncipe Charles. Nessa temporada, em especial, o vemos como um jovem em busca de ideais, de sonhos, lutando contra o destino de ser o futuro rei do Reino Unido. Em alguns momentos, como no sexto episódio, em que Charles precisava discursar e retomar o espírito de união do País de Gales ao Reino Unido, podemos ver um jovem meio excluído, sem perceber seu lugar, lutando com todas as forças pra mostrar que não faz parte daquele circo que sua mãe e os reis anteriores criaram. Isso é também reforçado por outros episódios, em especial em “Dangling Man”, onde é possível ver Charles criando vínculos com seu tio-avô, o Duque de Windsor, resultando numa espécie de mentoria. Este episódio e o seguinte mostram bem isso, uma vez que vemos mais do relacionamento de Charles e Camilla, que é atualmente a esposa do príncipe, mas que no passado foi afastada do mesmo por não ser digna de tal honraria, e vemos como Charles se coloca como injustiçado por não poder ficar com quem ama, assim como seu tio-avô não pôde. Charles não consegue entender que ele não é um ser humano comum com uma construção de vida normal, ele é um símbolo e pertence a um país, os seus desejos e idealizações não são levados em consideração sendo quem ele é, e a dificuldade dele aceitar isso é o que faz com que ele tenha as atitudes que vamos ver logo mais nas temporadas seguintes. A série também mostra de certa forma como Elizabeth se culpa por não poder dar uma vida normal aos seus filhos e como isso pode a tornar dura até mesmo com eles. A cena em que ele vai até o quarto dela para ouvir um parabéns pelo seu belo discurso só reforça o quão fria ela precisa ser para estar em tal posição e ela sabe que se não tornar seu filho da mesma forma, ele irá sucumbir a pressão. Josh O’Connor está simplesmente formidável na pele do príncipe, peguem uma entrevista de Charles pouco antes dele anunciar seu noivado com Diana e vejam como Josh consegue reproduzir fielmente os jeitos de Charles e até um pouco da entonação da voz.

A qualidade de produção da série continua uma verdadeira obra de arte. The Crown sempre foi muito feliz nas escolhas dos filtros em seus episódios, pois, eles diziam qual seria o tom do episódio, e nessa temporada não poderia ser diferente, nós conseguimos perceber nas cores mais sombrias e escuras que a série tinha mudado e agora abordava uma outra época não só física como emocional para a família real. O terceiro episódio da série retrata bem o que quero dizer aqui. A fotografia continua impecável com um trabalho de monstro aproveitando muito da Luz natural e explorando ao máximo as locações deixando as cenas exuberantes, porém, visualmente simples e sofisticada tornando a série cada vez mais real e pessoal com toda essa magia que permeia a família real britânica.

Eu poderia usar alguns outros parágrafos pra exaltar o enredo da temporada, falar dos aspectos técnicos, da perfeição do figurinos e da fotografia, continuar exaltando a atuação do elenco, mas isso tudo é algo que a série traz desde as temporadas anteriores. O que realmente responde à pergunta feita no título dessa postagem é a construção de momentos perfeitos de transição entre a segunda e a terceira temporadas. Vejam bem, a série foi capaz de continuar grandiosa (em alguns momentos ouso dizer que mais grandiosa ainda) mesmo com a completa mudança de elenco, mesmo com um longo hiato entre as temporadas. Ainda é possível sentir a magia da família real da mesma forma, se apaixonar por todos os aspectos históricos trazidos, criar fantasias sobre a personalidade de Elizabeth e de outros membros da realeza britânica.

The Crown é um verdadeiro exemplo de como uma série histórica e documental pode ser construída com maestria, mesmo que em alguns momentos a ficção tome parte da tela. Esta temporada, e possivelmente as seguintes, tendem a ser as mais mágicas, uma vez que os acontecimentos que vimos e veremos na série são parte da história recente britânica e mundial. Dessa forma, mesmo com mudanças enormes de uma temporada para outra, The Crown é capaz de nos manter presos nesse mundo que parece tão distante, mas que está há apenas algumas horas de avião daqui.

God Save the Queen

 

* Post Colaborativo com Gerson.

gostou da matéria? deixe um comentário!

Dam Souza

Baiano que tem caruru e vatapá no sangue, aquele que é o canto da cidade e só discute com quem entende de Inês Brasil.

Tema por Gabriela Gomes Todos os direitos reservados ao Panela de Séries