A velada hipocrisia que vivemos junto com o melhor perito de todos.

Incrível. Cada semana que passa me surpreendo com quão rápidos são os episódios de The Night Of. O que algumas séries costumam sofrer para durar em 42min, meia hora, esta pega sua hora e faz brincando. Literalmente, é uma brincadeira para ela Semana passada, de tão entretido esqueci da quebra de continuidade no caso Reade, que nem deu as caras na sexta parte, e nessa, novamente, os créditos apareciam e eu estava, mas já? Como assim acabou, nem senti o tempo passar. Estamos a uma parte do fim e se tem uma característica que vou lembrar de The Night Of é essa, fazer a hora voar.

Outra característica sua que vou lembrar é dessa salada de séries. Ver The Night Of me lembra várias outras produções, não como referência ou cópia, pois esta dá seu próprio toque e ritmo, mas como uso de palco, fundo para aprimoramento. Já vinha sentindo isso, a primeira parte me recordou The Killing, e desde então essa sensação só vem aumentando. Essa semana mesmo, a parte na investigação de Stone me lembrou True Detective; as partes no tribunal, American Crime Story e The Godd Wife; as na prisão, Prison Break; e por aí vai, mas vamos por partes.

No tribunal tudo muito rápido, desde semana passada essa parte do julgamento parece acelerada. Se fosse aqui no Brasil essa série não poderia ser assim transcrita, quem já viu, processo rápido assim, mas é isso, entendo que temos de terminar na próxima (assim espero, pois andaram circulando boatos de que haveria uma segunda temporada, falaremos sobre isso no finale, quando analisarmos o fechamento e possíveis pontas soltas). Começamos a ouvir as testemunhas com o perito de cortes, e aqui entra uma forte crítica a esse sistema de provas. Tudo é muito subjetivo e qualquer um pode dizer o que quiser. Contra a ciência não há argumentos, só que aqui a ciência varia de um perito para outro dependendo do interesse das partes. O primeiro deles, que já levara uma pessoa inocente para cadeia caminhando para o segundo, tinha um pré-acordo com a promotoria como visto antes, diferente do segundo perito, amigo de Stone, que estava realmente comprometido com a verdade,melhor pessoa, melhor dialogo, dá uma série para ele. Tem perito para todo gosto, basta escolher o seu. Claro que não se dá para acreditar em tudo que ouve, por isso vem a descredibilização das testemunhas, feito por Chandra e por  ardilosamente por Weiss. A mulher é uma fera sutil, mas aqui leva uma boa rasteira do perito que não dá uma bola fora, pode cair pra cima, resposta com bastante carisma para tudo.

weiss

Sabemos quem fala a verdade e quem está agindo por conveniência para acobertar o Estado, mas o júri não sabe, podendo ser enganado pela aparente credibilidade do primeiro. Weiss jogou sujo, como se o perito de Stone fosse menos profissional ou esperto que o seu por não ter trabalhado em grandes casos e não ser levado muito a sério, um reflexo do próprio Stone. Realmente suas teses parecem ser bem cabulosas, um jogo de se mutilar, sexo com sangue, céticos não comprarão essa ideia, acharão mais uma mirabolante teoria elaborada pela defesa para disfarçar o crime. Se tem um fator que não está sendo mostrado é a opinião dos jurados, estamos a cegas sobre suas deliberações, se eles estão comprando tudo isso ou já estão decididos, o que se torna mais imprevisível o final, quer dizer nem tanto, ou alguém duvida que ainda possa piorar para Naz e sua família?

Sério, não aguento mais ver sua família se fudendo, só ladeira a baixo. Agora sua mãe não acredita mais no filho, o que é compreensível com ele ligando da cadeia com um número privado. Sua cena com Chandra é linda, pois para todas elas seus filhos sempre serão bebês, e não esse monstro que esfaqueou a pobre menina. Filhos monstros só com a Lady Gaga, não como os meus. Seu pai é mais forte, e não deixo de me orgulhar por ele ser tão fiel ao filho, tão inquestionável, e tão firme em situações tão extremas. Como esse homem não se desespera. Táxi vendido, tudo penhorado, acusado e perseguido pela comunidade, ele continua inabalável e obstinado, não negocio com ladrões ele diz, nem um vislumbre de perder a calma e cabeça, eu numa situação dessas estava encolhido no canto do chão chorando em posição fetal sem saber mais o que fazer. Mas também, imagina o que esse homem não já passou na vida. É aquela coisa, as dificuldades e ódio só nos deixam mais fortes. A família Khan saíra mais forte dessa situação. Assim espero.

capa

Naz cometeu seu primeiro crime indiretamente, não estou contando o contrabando supondo que era uma questão de sobrevivência. E inocente ele não é mais. Responsável indiretamente por duas mortes. A primeira por sua não ação, que também é uma ação. Seu silencio matou aquele jovem. No olhar ao ser flagro, ao ser levado para a jaula, o jovem pedia socorro, Naz fingia não ouvir, não era problema seu. Faltou empatia. Ele não pensou que podia ser sua mãe querendo saber se ele estava bem e em troca recebendo a fatídica notícia. E isso que o leva a cometer o segundo crime. Remorso. Vingança. Enquanto a primeira foi um choque, decepção, horror, a segundo foi uma recompensa, esperado, justo, e triste, por ver Naz mais envolvido e sujo. Caminho sem volta. E talvez sem vida. A esse ponto todo mundo só quer que Naz sobreviva prisão, o que está bem difícil, pois sinto que qualquer merda pode acontecer no final.

A lista de suspeitos ficou em stand-by, não estamos mais perto do assassino de semana passada, quiça da retrasada, para cá, não houve evolução ou descoberta reveladora. Pelo contrário. The Night só mostra que aprendeu direito com True Detective e faz seu próprio estilo de investigação bem peculiar. E o mais próximo da realidade possível, ou você acha que na vida real temos todas as respostas fáceis assim. Aqui, sem aprofundamento dos suspeitos e sem motivações, não sabemos nada sobre eles. Pode ser qualquer um e pode ser nenhum, não temos informações suficiente para suspeitar fortemente de alguém como acontece em todos os quem matou quem. Cada vez que Stone tenta descobrir algo, chegar perto do que possa ser a verdade, ele é recuado dois passos, um suspeito foge, outro mostra que não está para joguinho e não tem nenhum Coronel Mostarda aqui. Aquela forma de ameaça me atormentara de um jeito que nunca mais conseguirei malhar peito em paz.

sotne

Pelo andar da carruagem chutaria o assassino como Naz. É o único que tenho fortes suspeitas. Ou aquele agente/contador que está fornecendo informações para Stone. Achei ele muito interessado no caso, e o único aparente fora da lista, já que o gênero adora desfechos surpreendentes e reviravoltas. Surprendente seria se encerrassem sem resolver o caso. Naz preso e a verdadeira identidade do assassino jamais revelada. Aí sim seria choque. Ou seria balde de água fria? Só vendo.

Mas nem de crime e tribunal vive essa série, sabemos disso. Drama e crítica, meus ingredientes favoritos não podiam faltar. Dessa vez na forma de Box. O personagem que havia perdido um pouco importância nos últimos episódios volta enigmático nesse. Permeado de dúvida. Desde o início. Primeira parte ele já disse que algo não se encaixava no caso, e desde então o vemos vacilar em suas convicções. Nesse ele já começou desconfiado. Um caso parecido com de Andrea apareceu, será que prendi o cara errado enquanto o culpado está livre cometendo mais – Making a Murderer – ? É mais fácil pensar como um caso aleatório, mas se tem uma coisa perturbadora é o que os questionamentos despertam em nossa cabeça. Não são as respostas que importam, sim as dúvidas. Ele vem transparecendo a culpa discretamente, sem nenhuma certeza de nada. Com Chandra, justifica tudo, não vacila, mas sabe que no fundo está errado. Como disse Stone pega você nas normas, age tão mecanicamente que nem pensa mais, imperceptivelmente acostumado as normas e ao ritual. Seu método foi abatido no tribunal, escancarada e junto com si suas falhas.

final

A cena final chega triste, e aqui bem intercalada. Suicídio e choque, construção e execução de outra morte, alternadas com momentos no bar da despedida de Box, ao som de I Will Survive em homenagem primeiro morto. O que poderia ser desequilibrado por cenas tão impactantes, fica bem encaixado aqui. Cada cena de Box é uma mostra de como a vida também é triste, falsa, sem sentido, para que tudo isso. Ele ali naquela mentira, fingindo que cumpriu bem o papel dele, defensor da sociedade, tendo que ser sociável, educado, feliz, aplaudido por estranhos, tudo um grande circo que não significa nada. Ele não queria estar ali, podemos ver e sentir a amargura de tudo isso, uma grande mentira, quando tantas dúvidas o corroem por dentro. Enquanto ele comemora sua aposentadoria, um inocente pode estar pagando por algo que ele não fez, entregue a criminalidade e a morte. Que sociedade hipócrita. Uns aproveitam vida regada a privilégios inerentes que nem dão conta possuir e outros são entregues a exclusão e sofrimento. Se ele vai fazer algo para mudar isso não sabemos, seria querer demais ele descobrir a verdade e voltar atrás para inocentar Naz? Espero que suas investigações deem em algo e não sejam mais uma tentativa frustrada de descobrir a verdade como a de Stone. Se sim, quantos talcos de golfe tiram o peso da dúvida?

P.s.1: Chandra brilhou essa semana, confiante, incisiva e ostensiva quando necessário, algumas bolas fora, mas está no caminho, um pouco mais de arroz e feijão para ela chegar a ser tão natural ardilosa como Weiss. Só não gostei de seu beijo com Naz, porra, precisava disso, os dois tem um laço forte e acaba rolando, sei, mas faltou profissionalismo, esperava mais dela. O que não deixa de ser condizente com a série, onde todos estão sempre pisando na bola.

P.s.2: O plot do jovem que se matou por estar sendo abusado na prisão foi bem Prison Break season one dejá vú. Triste, emocionado, mas não surpreso.

P.s.3: Amo gatos, mas esse plot não está dando, a não ser que o usem no final como uma prova irrefutável, não vejo relevância alguma, já deu, pode cortar. Stone, siga o conselho do japa, e se livra dele. Não mata o gatinho, mas não precisa dar destaque também.

P.s.4: O final é em alguns dias e assim como a última review, estarei postando o mais cedo que puder, enquanto isso façam suas apostas no culpado. Já fiz as minhas, vamos ver quem chega perto.

Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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  • Heloisa

    O mais triste foi a mãe do Nazi se colocando em dúvida… O beijo foi de uma idiotice sem tamanho, ainda mais que ficou claro que eles foram filmados. E amei o perito! Só acho que não foi o Nazi porque não daria para fazer aquele estrago todo e não se sujar…

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