Chegando ao fim de um ciclo, vem a necessidade de avaliar se nossas expectativas foram correspondidas ou não, então, The Night Of valeu ou não valeu?

Com absoluta certeza sim, que maravilha de série. Quem embarcou nessa trajetória de Naz criada por Richard Price (em partes, já que é baseado na britânica Criminal Justice) não deve ter se arrependido. E sim, eu falo por todo mundo, impossível não gostar dessa delícia, se houver alguém por favor se manifeste. Só pelo piloto a série já mostrou que valia a pena, e desde então conseguiu manter a contínua e crescente qualidade. Nem tudo foi perfeito, claro, mas nada que chegue a atrapalhar, ínfimos detalhes mesmo, que nem valem ser considerados diante de tamanha obra.

Esse final funcionou bem amarrado. Ninguém foi deixado de fora. Todos personagens moveram as peças, foram confrontados, fizeram decisões e omissões, foram punidos (não o Naz dessa vez) e muito bem interligados. Cada um agiu de uma forma que influenciou decisivamente o julgamento de Naz. O júri, acabou recebendo, mesmo que em fragmentos, todo o relato da noite, soube do tanto que aconteceu quantos nós, exceto o último suspeito e o que rolava debaixo dos panos, mas a inocência de Naz estava lá contada. Cabia acreditar ou não.

juri

Começamos com Box investigando o caso, depois de confrontado semana passada, talvez o vazio, culpa, ou falta do que fazer mesmo o deram uma injeção de ânimo para resolver o caso. Ele começa com aquela velha tática muito usada nesse tipo de filmes, revirar filmagens, fotos, a procura de alguém, e sempre aparece um rosto até então desconhecido. Nesse caso um olhar, Andrea olhando para trás, aparentemente com medo, fugindo de alguém, se ele tinha alguma dúvida agora não restam mais.

andrea

Essa primeira imagem veio para confirmar que o assassino é um homem, assim como todos os suspeitos o são, ninguém acreditava ser uma mulher, aí que poderia vir uma surpresa, mas se não, quem era então esse homem? Todos as testemunhas interrogadas não tinham muito a oferecer. Só o benefício da dúvida. Poderia ser qualquer um daqueles três presos no lugar de Naz se Box tivesse feito seu trabalho dedicadamente desde o princípio, ou se Naz não tivesse esquecido a chave do carro dentro da casa fechada. E isso prejudica Naz, bem mais fácil pensar que foi o réu do que qualquer um dos possíveis culpados soltos. Ninguém comprou muito esses suspeitos vendidos pela série, e imagina o júri. Pareceu só mais uma tentativa de a defesa atirar para outros lados.

Box decide virar um detetive de verdade e usa de todos os meios que possui para achar a identidade desse vulto e resolver esse quebra-cabeça. A gente agradece. Nem tanto, não sei. Foi aquela coisa. Dissapointed but no surprised. Esperado. Os interrogados no tribunal não seriam por motivos óbvios, estavam ali só para nos distrair, por que se era para enganar não conseguiram. Muita gente já suspeitava de Ray, o único não tão óbvio assim que estava fora do radar. Seguiu a linha de todo quem matou quem segue. Ruim não foi, mas também não foi diferencial. Acho que serviu mais como uma mostra de que como aquilo estava na cara de todos o tempo todo, se alguém tivesse parado para investigar direitinho isso já teria sido descoberto há tempos, viu seu Box, prendeu Naz à toa. E depois de preso é mais difícil sair, como bem mostrou Weiss, que não gostou nada de saber a verdadeira identidade do assassino agora que tinha mais chances de condenar Naz. Mais fácil ganhar logo essa que já foi bastante trabalhada a abrir outra nova contra Ray.

murder

Chandra chutou para todos os lados, só jogando culpa e “abrindo possibilidades” com aquele interrogatório de suspeitos que não enganou ninguém. Estava fazendo bem seu trabalho, mas a confiança lhe subiu à cabeça. Antes confiança demais do que de menos, mas aqui seu excesso poderia encarcerar Naz. Torci o nariz quando ela quis chamar ele para depor. Sabia que não era uma boa ideia. Eu mesmo não iria. Tá certo, ele quer provar sua inocência, tem que falar pelo mesmo, se pronunciar alguma hora, poder se defender olhando nos olhos do júri como ele fez, o problema é que isso não funciona, a gente sabe, exposto para a promotoria, uma hora ele ia se perder em suas declarações, isso que os advogados fazem, te pegam nas brechas, e por mais que você fale a verdade, elas vão aparecer. Naz foi verdadeiro todo momento, esse é problema, não dá para ser assim quando se fala em justiça. Diante da pergunta que todos queremos saber, ele não podia ser mais sincero, pode ser ele, mas ele não tinha certeza, sofri com ele. Bem se dá nesse mundo quem finge melhor.

naz

Essa não foi a única péssima escolha de Chandra. Sinceramente, lutei para entender o que se passa em sua cabeça, mas não consegui. A descaracterização da semana passada, não engulo aquele beijo vindo uma menina que parecia ser tão profissional, essa semana só foi ladeira abaixo nessa, mostrando que ela não entendia era nada de nada. Porque diabos ele foi pegar drogas para Naz? Que tipo de advogado faz esse tipo de coisa ilegal e sem motivos assim. Por que ela iria se arriscar tanto? Ela não pode dizer que não esperou pela suspensão e fim de carreira. É triste, pelo fato de ser apenas um erro, um beijo, o tráfico dessa semana veio só para justificar mais a punição, que pode por toda a dedicação de sua vida pelo ralo. Eu como engenheiro civil sei bem disso. Não pude deixar de achar bem feito quando ela, que no começa tirava onda de Stone insinuando que ele não era nada e só ela estava fazendo algo útil, teve sua queda depois do depoimento de Naz e na opressiva sala do juiz. Levava jeito, mas melhor ir procurando outra profissão, pois como bem mostrou a fria advogada de sua companhia – sério aquela mulher me passa um mal-estar, sua fala distante, olhar superior e feições complacentes, que insinuam pena de você- no mundo dos negócios não tem espaço para sermão ou segundas chances.

chandra

O fato é que essa suspensão de Chandra serviu para a quase anulação do julgamento e colocar Stone no discurso final, que convenhamos, ele merecia, está desde o começo com Naz, viu tudo que se passou e entendia o que estava acontecendo, aquele momento era dele, só ele podia fazer aquele discurso. Começou bad com seu ataque alérgico, mas isso não o parou, ser tratado como leproso só o inspira. Seu discurso foi como um resumo de tudo que aconteceu, quinze minutos que podia ser muito e não foi, a explanação dos crimes podia ser dispensada, mas a parte sobre princípios constitucionais foi muito boa. Reflexiva. Conceitos sempre usados e falados, que mesmo assim perdem seu significado para nós que julgamos em segundos por raça, aparência, modo de se vestir, é bandido, e bandido bom é bandido morto. Conceitos que precisando ser lembrados e sublinhados, para que não esqueçamos e possamos chegar um pouco mais perto da justiça.

survivor

O bom foi que apesar de todos os contras, uma dupla não convencional e subestimada, conseguiu, sem ajuda nenhuma da polícia ou Estado salvar uma vida. Esperei até o último minuto que Box fizesse alguma coisa, mandasse as fotos para Stone, desse uma pista, qualquer coisa, mas não aconteceu. O que só deixa a série mais real e triunfante. Uma vitória dos próprios, que ninguém dava nada por e de Naz agora inocentado. Tá certo que a saída de Box no meio discurso pode ter ajudado o júri, ver o detetive que depôs saindo foi uma indireta certeira, que teve seu papel, escancarando toda hipocrisia e mentira de Weiss e assim a desequilibrando em frente ao júri. Para olhares mais atentos esse ato disse tudo. O que também ajudou Weiss a não ir para a frente com o caso quando deu empate. Pequenos atos, que somados contaram para livrar Naz. Isso supondo que o dvd de anulação foi enviado por Freddy e não Box.

out

Naz inocentado, livre para abraçar o pai que o espera já na saída, que lindo, noite em família, tudo de volta ao normal, só que não, talvez nada seja como antes e algumas marcas fiquem para sempre, crack por exemplo. Interessante notar que com tanta correria, preocupação e perigo Naz nem teve tempo de sentir por Andrea. Só agora livre que parou para chorar a falecida. A cena final fica com Stone, uma espécie de gatinho, sozinho, abandonado, que só precisa de amor, cuidado e proteção, pobrezinho, aquele anuncio foi feito para ele, que agora com o caso encerrado volta a sua rotina, com a diferença que agora abraçando e acolhendo outro gatinho que também precisa de amor. Muito fofinha a última cena com o gato passando. Essa série é sobre gatos, só não vê quem não quer.

Série encerrada, diria que a viagem valeu pena. Impossível se evitar comparações, e entre ela e True Detective, e se fosse para escolher seria díficil, mas é TD mesmo. The Night Of foi ótima por seus motivos, e sinto que ela podia ser bem mais se quisesse, se decidisse para onde quer cair, tribunal, detetive ou prisão. Faltou subir o jogo nesse final para entrar no hall de séries da vida. Não imagino uma segunda temporada, assim como não vejo mais uso nos personagens atuais. Um dos produtores falou sobre a possibilidade da segunda temporada e se acontecer espero que seja com tramas e personagens totalmente novos. Esses já deram o que tinha de dar e veja a trama de Naz e Stone bem encerradas. E por favor, se vier, não me venho como TD season 2 reloaded, tire umas férias, dê um tempo, pense, sem pressa e venha com ideias novas. O assassinato e a crítica ao sistema podem voltar. Obrigado.

gato

Últimos suspiros: Naz deixando a prisão sem despedir de Freddy foi um bom livramento. Hora de olhar para a frente e esquecer esse inferno. Em seu último dialogo achei que Freddy estava se declarando e a ponto de atacar Naz, esse pensamento que ele não ia sair vivo daquela cadeia me atormentava toda hora.

Últimos suspiros 2: Alguns podem não gostar desse final por ter tido muito conversa, são vários diálogos longos, fora a repetição no começo com os suspeitos, que podem soar cansativas para quem queria ação, reviravoltas e tensão. Mas para mim um dos pontos altos do episódio foi o interrogatório de Naz e como ele foi pego em sua própria história convicto que não fora ele para depois passar a um não sei duvidoso. Poderia passar horas vendo diálogos como esse e o fechamento de Stone.

Últimos suspiros 3: Mais uma vez o episódio voou, 90 minutos mais rápidos que lembro, isso fora a ansiedade que eu estava por esse final e pelo fechamento das tramas. Passei o dia esperando para ver como cada um ia acabar.  E minha mãe que me viu vendo o piloto e dai decidiu acompanhar já me ligou para dizer que amou o final. Envolvimentos assim as vezes são difíceis para filmes conseguir.

Últimos suspiros 4: River deve ser difícil, mas nada comparado ao Brasil, aqui Naz já estaria morto ou com pena perpetua de certeza.

Últimos suspiros 5: Até a próxima temporada, se houver. De todo jeito obrigado pela presença, espero ter contribuído em algo na experiência com essa delicia de série.

Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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  • Heloisa

    Uma indagação: pra mim ficou óbvio quem era o assassino, mas num comentário em outro blog falaram em final aberto!!! Eu não concordo. E vc? Um outro comentário: a prisão também lembrava outra série da HBO: Oz. Eu acho que o que faltou foi fazer uma série com mais capítulos para manter o ritmo do começo, pq aceleraram bem nos últimos episódios. Para encerrar: é uma boa série (ou minissérie). Espero que John Turturro seja lembrado para algum prêmio. Para encerrar: diferentemente de vc, eu gostei da 2a temporada de TD. Consigo separar as 2 temporadas como isoladas, como séries independentes e completamente diferentes. Talvez esse tenha sido o erro: manter o nome, pois os estilos são completamente diferentes. Amei Vince Vaughn fazendo um papel dramático. Hasta la vista!

    • Robson Abrantes

      Olar Heloysa,
      então, de certa forma o final ficou em aberto, já que não propriamente vimos o que aconteceu no instante do crime e nem tivemos uma confissão autor. Não teve confirmação, não há certeza, só a conclusão de Box, essa deve ter sido a intenção do show, o que não os impede de aparecer na segunda temporada com outros novos suspeitos para no fim mostrar Naz como assassino.
      Mas para mim dou o caso como resolvido satisfatoriamente, não preciso de mais indícios, na vida real nunca temos certeza mesmo.
      Sobre TD2 eu até gostei, alguns episódios bons, foi só questão de expectativa mesmo sabe, você espera muito e não corresponde, foi boa, eu que criei o monstro.
      Ela ainda está acima da média geral em qualidade, piloto e finale muito bons, e se tiver com certeza darei uma conferida, dessa vez com menos expectativa.
      Abçs Heloysa;)

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