“Have you ever questioned the nature of your reality?’’

A HBO lançou semana passada uma das séries mais aguardadas da fall season. A sinopse sci-fi e produção de JJ Abrahms já arreganharam um grande público, juntando ao grande investimento e elenco de peso como Anthony Hopinks, Evan Rachel Wood, e Rodrigo Santoro para nós brasileiros, as expectativas vão lá para cima. Tem gente dizendo se tratar de Game of Thrones 2.0, mas será que dá para segurar essa responsabilidade?

Olha, dá sim, e pode até ser mais viu. Tá certo que não dá para se confiar muito pelo piloto, muitas entregam o piloto da vida mas se perdem antes de chegam ao fim da temporada, mas diria que pelo que foi visto, 1h10min que nem passaram, voaram, o entretenimento é de primeira e tem muito pano na manga para tirar. Várias possibilidades já se desenharam e estou ansioso por ver cada uma tomar forma com o decorrer do show. Falarei delas por partes.

Começou com um questionário a personagem principal Dolores, contendo a pergunta que abre a review. Todo o início foi muito bem conduzido para nos levar aquela miniatura de mundo que me deixou de queixo caído e já rendido a série. Uma realidade alternativa no velho oeste criada para que os humanos do teoricamente mundo real vão à visita, podendo se divertir fazendo o que quiserem, inclusive o que não pode por aqui. A exemplo matar, roubar, muito sexo claro, e viver aventuras.

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Nesse mundo inventado os humanos também o são, e lá estão com o único propósito de fazer um personagem roteiro pronto para agradar a vontade dos visitantes. Sendo que eles são programados para viver esse scrit repetidamente apagando as memorias no final e no outro dia fazer tudo exatamente igual sem sequer se dar conta disso. Para eles aquilo é real, sua vida se resume a ao modelo de um dia e ações, no repeat, mesmo rotina, atos, palavras, com o mínimas improvisações e mudanças apenas advindas pelos visitantes..

Realidade e natureza aqui são primordiais. A pergunta não é aleatória, longe disso, perigosa nas mentes mais inquietas. Se sua realidade é acordar, trabalhar, comer, dormir, tudo isso para manter girando um sistema do qual você não usufrui, só é sugado, sem sequer se dar conta qual se está sendo manipulado (não mentira por completo, já que Dolores ainda vive sua realidade, apenas distorção da real fonte impulsionadora) então você não é muito diferente do que está vendo. A serie não se resume a sci-fi de qualidade. Seu poder reside nas analogias ao nosso mundo e indagamentos que propõe.

Você já parou para pensar que o mundo que vivemos não é real? Só um sonho que estamos passando? Parece loucura, mas pegue o exemplo do sonho, por mais extraordinário que ele seja naquele momento é como se ele fosse real. Estamos vivendo aquilo e já quase morremos mais de mil vezes nos sonhos (provado, sempre acordamos antes de morrermos). Algumas religiões xamãs inclusive acreditam que essa vida não passa de um sonho, da qual acordaremos depois para a verdadeira realidade. A morte pode ser o princípio de outro estado de sonho na qual sua energia ainda circula por aí, só que não na forma material.

É de assustar. Passei toda o piloto reavendo meus conceitos de concreto. Que estou aqui para atender interesses de pessoas que eu nem sei quem são, que vem, arruínam tudo e ainda se dão bem no final, sobrando para a base limpar a sujeira (políticos e grandes corporativistas estou olhando para vocês) disso eu já sabia, mas ter esse e vários outros questionamentos poética e discretamente trazidos à mesa em cada cena é de se render e aplaudir. Não se enganem, a série é bem mais que um faroeste futurista, deixa muito por detrás do que passa, basta saber colher as perguntas.

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Fecha digressões. Juro que vou tentar, mas com uma material desses não resisto. Além desse vibe bem Black Mirror Fringe que os críticos a sociedade tecnológica e fãs de ficção cientifica vão amar, a série tem uma filmografia espetacular, bastante suspense, e como todo faroeste e HBO que se preze muito tiro e sangue. Possiblidades abertas com o piloto são infinitas e os roteiristas tem muito o que trabalhar. As que mais chamaram a atenção foram:

– Zerar o GTA. O misterioso pistoleiro de preto, que bugou a cabeça de muita gente no dialogo inicial com Dolores soltando peculiaridades desse mundo até então desconhecidas, já confirmou que tem um jogo maior por trás da bebedeira putaria e carnificina. Há mais de 30 anos nessa brincadeira, ele está para zerar o Mario da realidade aumentada. Amei a ideia, muito condizente com os jogos de hoje feitos por uma narrativa colossal e muito ansioso para ver o personagem passar fase por fase até chegar ao chefão final. Já com capacetes de realidade virtual e Pokemon Go alguém duvida que esse será o próximo salto? Me espera futuro que eu quero jogar também.

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– Conspiração corporativista: A conversa da CEO com o roteirista deixou claro que há um interesse maior no jogo que satisfazer as necessidades dos ricos sedentos por um escape. No momento estou pior que o roteirista, não consigo nem imaginar qual o cenário maior, e acho que por enquanto o foco não será esse. Mas depois de trabalhado com o tempo, sorrateiramente ou não, nos tempos de internet que nenhuma teoria passa incólume, esse plot surgira para explodir cabeças. Com sorte antes da finale.

– Rebelião das máquinas: Com certeza a melhor e mais empolgante. Todo mundo gosta de uma boa revolução e essa ideia das maquinas tomando o controle fascina o homem desde Matrix e Einstein que previu um cenário assim. A força motora da série. A Siri mandando você se f*. Os personagens saindo do seu status quo subconsciente e despertando para a realidade maior. O pai de Dolores deu um gostinho prometendo vingança, Hannibal Lector que se cuide. O desenrolar dessa virada promete. Dolores que não matava uma mosca acabou fazendo sua primeira vítima no fim do episódio. Samsung 7 explodindo sem causa aparente. Depois não digam que não viram chegando.

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E vocês, o que acharam do piloto? Já pode marcar a serie como promessa do ano? O que mais gostou e lhe atraiu? E mais importante, você já se perguntou a natureza de sua realidade hoje?

– P.s.1: O que será que Bernie comentou no ouvido de Peter para o deixar tão comovido? Seu princípio, fim ou mais Shakeaspeare. Esse não deve ser o fim de pai Albernathy. Bernie é gamado em subconsciente e aposto que isso vai ter papel fundamental no despertar dos personagens assim como tem nos estados vegetativos, ainda podendo servir de fundo para possível passados dos personagens.

– P.s.2: Será que vai rolar uns flashback de como tudo começou? Como surgiu, o contexto, tal. Como o processo de criação não foi detalhado não descarto a possibilidade do cérebro, memorias, hd dos personagens terem sido tirados do eu de pessoas reais.

– P.s.3: “I have a question, a question we are not supposed to ask.” Para Dolores e algumas pessoas é mais fácil ignorar perguntas incômodas.

– P.s.4: Não é coincidência ser Shakeaspeare os versos citados por pai Albernathy. Se não as belas artes (ou uma foto do outro mundo), que mais nos despertaria a consciência e nos faria indagar a natureza? Esse piloto estando incluso na categoria.

– P.s.5: Também não é coincidência o nome Ford. Clara referência ao livro Admirável Mundo Novo (que por sua vez é referência a um verso de Shakespeare) e ao criador do método (referência a Henry Ford, a série gosta de um looping, bem isso aqui) que produz milhares de embriões condicionados a obedecer determinada imposição antes mesmo de nascerem. Classicão basic ainda seguindo essa linha distópica. Por favor, leiam para ontem e despertem a consciência.

 

Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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  • IURY FERNANDES

    Ótima Review, senti a mesma empolgação e entusiasmo! O lance da Revolução das máquinas e também o questionamento existencial entre a criatura e o criador é realmente fascinante, já que é uma indagação existente em todas as mentes humanas desde o nascimento até a “morte” e que sempre conduz estudos filosóficos e científicos até hoje. Apesar de : O cenário da série ser o “Velho Oeste” nota-se uma contextualização moldada em assuntos pra lá de atuais: A ultra violência promovida pelo ser humano, as questões morais e sociais, o “sentimento” e como ele é administrado até por máquinas autônomas e finalmente a ligação entre Liberdade e Humanidade são temas notórios já nesse primeiro episódio . De fato, West Word é no mínimo irresistível.

    • Robson Abrantes

      Olár Iury. Muito obrigado pela presença. Você tocou em interessantes pontos como a ultra violência natural para o homem que nem tinha reparado no meio de tanta coisa. Riqueza e questões filosóficas existências não faltarão para serem discutidas. Um abraço.

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